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segunda-feira, 24 de março de 2014

Aos que Morreram na Luta contra a Ditadura


Luiz Eurico (Ico) Tejera Lisboa
Primogênito de sete irmãos (sendo um deles o músico Nei Lisboa), iniciou sua militância política na Juventude Estudantil Católica, depois integrou o Partido Comunista Brasileiro, a VAR-Palmares e a Ação Libertadora Nacional.
Estudou no Colégio Estadual Júlio de Castilhos, em Porto Alegre, centro da efervescência do movimento estudantil secundarista, onde fez parte do Grêmio Estudantil e acabou expulso, junto com outros colegas, por motivos políticos. Mudou-se para Santa Maria e foi membro da diretoria da União Gaúcha dos Estudantes Secundários.
Em março de 1969, casou-se com Suzana Keniger Lisboa e começou a trabalhar como escriturário no Serviço Nacional de Indústrias (SENAI). Porém, em outubro do mesmo ano, o inquérito policial-militar no qual tinha sido absolvido por unanimidade foi rearberto e, à revelia, foi condenado a seis meses de prisão. A condenação levou o casal a optar pela clandestinidade.
Esteve algum tempo em Cuba, retornando ao Brasil em 1971, na tentativa de reorganizar a ALN em Porto Alegre. Foi preso em circunstâncias desconhecidas em São Paulo, na primeira semana de setembro de 1972. Supõe-se que tenha morrido poucos dias depois, sob tortura, aos 24 anos de idade.
Somente em junho de 1979 o Comitê Brasileiro pela Anistia conseguiu localizar o corpo de Luiz Eurico, enterrado com o nome de Nelson Bueno, no Cemitério Dom Bosco, em Perus, São Paulo. Dentre os desaparecidos políticos do período da ditadura militar, ele foi o primeiro cujo corpo foi encontrado, comprovando-se, a partir de então, a política oficial de desaparecimento de opositores por parte do Estado brasileiro.
Dois meses depois, uma foto do jovem Luiz Eurico foi capa de várias revistas nacionais, e a carta escrita por sua mãe, Clélia Tejera Lisbôa, com o título "Não choro de pena de meu filho", tornou-se um símbolo da luta pela anistia e pelo reconhecimento da existência dos desaparecidos políticos no Brasil.
Em 1993, a Editora Tchê, em parceria com o Instituto Estadual do Livro do Rio Grande do Sul, publicou o livro Condições Ideais para o Amor, com poesias e cartas de Luiz Eurico Tejera Lisbôa e depoimentos de pessoas que o conheceram, edição organizada por Antônio Hohlfeldt.
O título do livro foi retirado do texto de uma carta escrita por ele a sua companheira Suzana, em 5 de julho de 1968:
"Fiquei com pena de todos eles, Suzana. Dos que mentem, dos que invejam, dos empertigados, dos ambiciosos, dos que fazem do amor um remédio, um passatempo, um negócio, um paliativo. E percebi quão poucos entre nós chegaram ao sentido final do combate que travamos. Eles não compreendem, Suzana, que nós somos um momento na luta que o Homem vem enfrentando através da História, cada vez mais conscientemente, pela felicidade. Não entendem que nós buscamos, em última análise, as condições ideais para o amor. Tanto no plano coletivo, como individual."
Em junho de 2013, laudo da Comissão Nacional da Verdade refutou a versão oficial de que Luiz Eurico tinha cometido suicídio.

quarta-feira, 19 de março de 2014

Presídio Central de Porto Alegre

PMDB (1994-1997): Antônio Britto determinou estudos para desocupação até 1998
PT (1998-2001): Olívio Dutra promete solução para o Presídio Central.
PMDB (2002-2005): Germano Rigotto lista projetos de criação vagas e desativação do Presídio.

PSDB (2006-2009): Yeda Crusius anuncia a implosão do Presídio Central.
PT (2010-2014): Após denúncia na OEA, Tarso promete desativar o Presídio.

E tem gente que acha que o problema é de conjuntura e não de estrutura político-institucional.


sábado, 8 de março de 2014

Sobre a Jurisdição na Execução Penal

O depoimento abaixo é um comentário ao post do Samir Oliveira sobre reportagem do Jornal Zero Hora que apontou uma série de "dúvidas" quanto à postura da juíza Sonáli Zluhan (foto) ao revogar algumas prisões preventivas de réus da 1a Vara do Júri de Porto Alegre.
Desde o meu ponto de vista, a reportagem é tendenciosa e expressa o que chamamos em criminologia de "pânico moral." Leiam a reportagem e tirem as suas conclusões.
Mas igualmente leiam este relato da Tassiane Godinho.
Particularmente é este o tipo de postura que espero de um juiz de execução penal: alguém capaz de olhar as pessoas presas como pessoas.
"Minha opinião não foi requerida, mas mesmo assim, por ser presa, (hoje em regime aberto), me sinto obrigada. Quando no fechado tive a oportunidade de ouvir um número expressivo de relatos de apenados que passaram ou cumpriram pena no presidio de Caxias do Sul, e todos, inclusive os condenados por ela, todos relatam a forma humanitária, a maneira fraternal, a simplicidade, com que esta juíza tem o hábito de tratar os presos.
É uma das poucas (os) juízas que podem entrar em alguma cadeia sem acompanhamento de uma infinidade de agentes armados. Ela entra sozinha, literalmente desarmada, olhando semelhantes e não animais. Não entro no mérito de suas condenas ou alvarás de soltura, não os conheço, saliento sua atitude, esta diferenciada e digna de louvor
."




quarta-feira, 5 de março de 2014

Para Entender Direito


Dia 20 de março, quinta-feira, na Faculdade de Direito da USP, 1o. andar (prédio histórico), sala Visconde de São Leopoldo, 18hs, lançamento da coleção "Para Entender Direito", coordenada por Marcelo Semer e Marcio Sotelo Felippe.
Destaco os livros "Criminologia", de Sérgio Salomão Shecaira, e "Prisão e Liberdade", de Rubens Casara.


segunda-feira, 3 de março de 2014

Escravidão e Linchamentos

Leio comentários sensíveis de "pessoas de bem" nas redes sociais chocadas com as cenas de tortura e de exploração sexual veiculadas no filme 12 Anos de Escravidão
No entanto, há alguns dias, estas mesmas pessoas apoiavam explicitamente os linchamentos públicos.



domingo, 2 de março de 2014

Metodologia de Pesquisa: "Marcha da Maconha" (estudo de caso)

Está disponibilizado no academia.edu o Trabalho de Iniciação Científica da Lorena Otero, orientado pela profa. Marta R. A. Machado (FGV de São Paulo), sobre a Marcha da Maconha.
Destaco algumas características do trabalho, sobretudo aos jovens pesquisadores das Faculdades de Direito:
(a) Metodologia: o trabalho é um estudo de caso (Marcha da Maconha). Assim, diferentemente das "pesquisas" que temos no Direito, não se limita à mera revisão bibliográfica, ou seja, demonstra como é possível fazer uma pesquisa para além da compilação de fichas de leitura.
(b) Técnica de Pesquisa: em razão do déficit de bibliografia, o trabalho é concentrado em entrevistas, análises de julgados e reportagens de jornais, ou seja, trata-se de uma pesquisa em fontes primárias.
(c) Conteúdo: se no Direito temos uma espécie de vício em relatos bibliográficos (compilação doutrinária), nas ciências sociais o vício é o do mero relato de casos (descrição de dados). No trabalho, a autora narra o problema de pesquisa, apresenta os dados empíricos que o envolve (problema) mas, em momento algum, deixa de fazer uma análise crítica, discutindo teoricamente as questões.
Leitura indicada não apenas para quem tem interesse no tema, mas para quem busca formas alternativas de construir uma pesquisa.

https://www.academia.edu/6249426/Das_ruas_ao_Supremo_Tribunal_Federal_a_criminalizacao_da_Marcha_da_Maconha_no_Brasil

quarta-feira, 12 de fevereiro de 2014

Mensagem aos Formandos [UFRGS, Direito (noturno), 2013/2]


Mensagem aos Formandos do Curso Noturno,
Faculdade de Direito da UFRGS [Ano Acadêmico 2013/2]

1. A Universidade de Padova, fundada em 1222, foi considerada a capital científica do mundo entre 1400 e 1800. No início dos 1400’s é o único ateneu do Veneto. Em 1678, laureou a primeira mulher da história: Elena Lucrezia Cornaro Piscopia. Além disso, durante muito tempo, foi a única Universidade europeia a aceitar estudantes de religião hebraica e protestante e estrangeiros em geral.
Desde a sua fundação, foi constituída como “Universitas Scholarium”, uma livre corporação na qual estudantes e mestres definiam, conjuntamente, o rumo da formação acadêmica. No entanto, ao final do aprendizado, para conseguir a láurea, o estudante deveria submeter-se a duas provas: uma privada e uma pública. No final do século XV, o exame público ocorria no Duomo de Padova, em solenidades regidas pelo Reitor, com a presença do Bispo e com a participação ativa de toda a comunidade. O rito era extremamente formal e solene. O novo laureado era vestido com uma suntuosa toga de seda, recebia uma grinalda de louros, um cetro e um papiro contendo sonetos, cânticos e poesias que exaltavam as suas virtudes morais e intelectuais.
A partir do século XIX, porém, os estudantes passaram a fazer rituais próprios de profanação da pomposa cerimônia oficial. Os primeiros rituais “goliárdicos” nascem como uma forma de paródia da solenidade de láurea. O acadêmico, vestido em farrapos de seda, é “homenageado” em um manifesto em que são sublinhadas as suas qualidades de beberrão, jogador e boêmio, ao invés das suas virtudes morais e da sua sabedoria.
A partir dos anos 60, o rito transformou-se em uma cerimônia em homenagem a Baco e a Vênus. Trata-se de um ato com forte significado anticonformista, em oposição à mentalidade burguesa sempre atenta à aparência (às vestes e aos cetros) e ao papel que o indivíduo (laureado) ocupa na sociedade. Assim, neste ritual invertido, o formando recebe, dos demais alunos, insultos, xingamentos e penitências, como forma de lembrar que, apesar de ter conquistado um status social mais “elevado” com a láurea, não deixará nunca de ser a mesma pessoa, com os seus mesmos méritos e deméritos. No evento – o que hoje é possível acompanhar em inúmeras ruas das cidades universitárias italianas no período de formatura –, o laureado deve passar por uma provação: ler um “papiro” sem cometer qualquer erro, tarefa extremamente difícil em razão da tensão do momento e, sobretudo, da dificuldade do texto (normalmente redigido em difícil rima e em dialeto). A cada erro, o formando é obrigado a beber uma taça de vinho, acompanhado dos amigos que cantam em coro: “dottore, dottore, dottore del buso del cul, vaffancul, vaffancul!” [em tradução livre: doutor, doutor, doutor do olho do c#, vai tomar no c#, vai tomar no c#].[1]
A cerimônia lembra um antigo rito romano, quando o General, vitorioso na guerra, ao celebrar o seu triunfo, tinha como dever refletir sobre uma espécie de mantra que um escravo repetia a exaustão: “ricordati che sei mortale”.

2. Agambem, no Elogio della Profanazione, lembra que os juristas romanos sabiam perfeitamente o que significa “profanar”.
As coisas sagradas ou religiosas eram, de algum modo, propriedade exclusivas dos Deuses. Nesta condição, eram subtraídas do livre uso dos homens: “sacrílego era todo o ato que violasse ou transgredisse esta sua especial indisponibilidade, que as reservava [as coisas] exclusivamente aos deuses celestes (nesse caso eram denominadas propriamente sagradas) ou infernais (nesse caso eram simplesmente chamadas religiosas)” (Agambem).
Sacrare” era o termo que indicava a saída das coisas da esfera do direito humano. Profanar significava restituir ao uso comum: “’profano’ – podia escrever o grande jurista Trebácioem sentido próprio denomina-se àquilo que, de sagrado ou religioso que era, é devolvido ao uso e à propriedade dos homens” (Agambem).

3. Meus queridos amigos, formandos. Antes de tudo, quero agradecer imensamente a homenagem. Vocês acompanharam a minha trajetória de luta e resistência, dentro e fora da Faculdade de Direito da UFRGS, e sabem o significado deste ato. Eu, Mari e Inês não temos palavras para agradecer este gesto de generosidade, de solidariedade, de cumplicidade.
Mas para além da figura (pessoal) do professor homenageado, creio que esta escolha aponta, sobretudo, para uma postura, para uma perspectiva acadêmica crítica, contestadora, problematizadora.
Como vocês sabem, a Faculdade de Direito da UFRGS, há muito tempo, tem sido sequestrada por “falsos deuses”, pessoas que acreditam ser aquele local res própria. Fazem questão de viver encastelados, gozando (d)o público como se privado fosse. Mais: fazem questão de ignorar qualquer manifestação ou reivindicação dos alunos. Para estas “mentes totalitárias”, os alunos simplesmente não interessam, os estudantes são apenas uma massa amorfa e acrítica, recipientes vazios que precisam ser preenchidos pelo conteúdo do seu pretenso saber.
Mas vocês, autênticos representantes das “Jornadas de Junho”, têm demonstrado que este estado de coisas não pode perdurar, pois a Universidade se realiza nos e com os alunos.
Os formandos desta turma, ao longo do curso, lutaram para que a Faculdade retornasse, para que fosse devolvida ao uso e à propriedade dos alunos. Por este motivo, foram chamados de sacrílegos e os seus atos imputados profanos. Mas exatamente por isso exerceram de forma virtuosa aquilo que de mais nobre existe no saber e no agir acadêmicos: a rebeldia e a profanação. Vocês atravessaram a ponte, desnudaram o Príncipe, questionaram os “podres poderes”, desestabilizaram o status quo. Sem dúvida, deixaram um legado que ecoará por gerações no Castelo. Talvez um legado que possa, finalmente, transformar a Faculdade em um espaço democrático e de respeito à diversidade.
Mas a virtude do agir passado não os exime de seguir na luta, resistindo contra a decadência do pensamento único. Ocorre que para seguir lutando para que as coisas “consagradas” (sacrare) sejam devolvidas ao uso e à propriedade dos homens, para que sejam efetivadas como direito dos homens (profanadas), é fundamental recordar, cotidianamente, a nossa condição de mortais. Ao apropriar para o momento da formatura, é essencial ter presente de que o status do título não nos torna melhor do que ninguém.
Por isso meu cântico, minha homenagem e meu anedótico alerta: “dottore, dottore, dottore...

Bologna, 12 de fevereiro de 2014

Salo de Carvalho
Professor homenageado, turma dos formandos do curso noturno da Faculdade de direito da UFRGS, ano acadêmico 2013/2




[1]                 Relato a partir das informações do sítio da Universidade de Padova (http://www.unipd.it/universita/storia-e-valori/storia) e da página da Associazione Erasmus Padova (http://www.esnpadova.it/content/breve-storia-delluniversita-di-padova).

sexta-feira, 7 de fevereiro de 2014

terça-feira, 4 de fevereiro de 2014

Jornadas Hispano-Brasileñas de Teoría Crítica, Criminología y Derechos Humanos


JORNADAS HISPANO-BRASILEÑAS DE TEORÍA CRÍTICA, CRIMINOLOGÍA Y DERECHOS HUMANOS

DÍA: 14 de febrero de 2014. 
SALÓN DE GRADOS. Facultad de Derecho. Universidad de Sevilla. 
COORDINA: David Sánchez Rubio (Profesor Titular del Departamento de Filosofía del Derecho. Facultad de Derecho. Universidad de Sevilla).
ORGANIZA: Departamento de Filosofía del Derecho. Facultad de Derecho de la Universidad de Sevilla.

MAÑANA: 10:30h. -13:30 h.

10:30 h. Presentación. “Teorías del Derecho y criminologías críticas.” D. David Sánchez Rubio (Profesor de la Universidad de Sevilla. Doctor en Derecho).

11:00-11:45 h. “Aplicación y Ejecución de las penas privativas de libertad y restrictivas de derechos en Brasil. Una mirada desde la criminología crítica.” D. Salo de Carvalho (Profesor de la Universidad Federal de Santa María/Santa María, Maestro y Doctor en Derecho)

11:45-12:30 h. “Aplicación y ejecución de las medidas de seguridad de internamiento y de tratamiento ambulatorio en Brasil”. Dña. Mariana de Assis Brasil e Weigert (Profesora de la UniRitter/Porto Alegre, Maestra en Ciencias Criminales y Doctoranda en Psicología Social).

12:30-12:45 h. Debate y preguntas.

12:45 h. “Reflexiones en torno a la criminología crítica, derecho penal del enemigo y derechos humanos.” D. Juan Antonio Senent de Frutos (Profesor de la Universidad Loyola de Sevilla y Doctor en Derecho) y Álvaro Sánchez Bravo (Profesor de la Universidad de Sevilla. Doctor en Derecho).

TARDE: 17:00 h.-20:00 h.

17:00 h. “Justicia restauradora y criminologia crítica: el caso brasileño”. D. Daniel Achutti (Profesor de la UniLaSalle/Canoas, Maestro y Doctor en Ciencias Criminales).

17:45 h. “Teoría y práctica de la justicia restauradora en Brasil”. Dña. Raffaella da Porciúncula Pallamolla (Maestra en Ciencias Criminales y Doctoranda en Ciencias Sociales en la Pontifícia Universidad Católica de Rio Grande del Sur).

18:30-18:45 h. Debate y preguntas.

18:45-20:00 h. Presentación del libro Teoría crítica del Derecho. Nuevos horizontes de D. David Sánchez Rubio y D. Juan Antonio Senent de Frutos. Comentaristas: D. José Emilio Palacios (Profesor de Servicio Social jubilado de la Universidad Pablo de Olavide de Sevilla), Dña. Nuria Cordero (Directora del Departamento de Trabajo Social de la Universidad Pablo de Olavide de Sevilla y Dra. en Servicio Social) junto con los autores del libro.

Leminski e o Pixo

"O grafite está para o texto assim como o grito está para a voz" (Paulo Leminski).



domingo, 19 de janeiro de 2014

Sobre o concurso da UFRGS


E depois de os membros externos se negarem a assinar a ata; e depois de todos os membros da banca indicarem a necessidade da realização de outro concurso, a Pró-Reitoria de Gestão de Pessoas da UFRGS homologou o resultado final.Meu caros, não tenho mais nada a dizer. Vou permanecer em Pasárgada até o fim dos meus dias.
http://www.ufrgs.br/progesp/progesp-1/concursos-publicos/magisterio-superior/concuros/2013/edital-18-2013/arquivos/edital-rf/08-ed-18-2013-dir-direito-penal-e-criminologia

quarta-feira, 1 de janeiro de 2014

Tempo que Foge


"Contei meus anos e descobri que terei menos tempo para viver daqui para frente do que já vivi até agora.
Sinto-me como aquele menino que ganhou uma bacia de jabuticabas. As primeiras, ele chupou displicente, mas percebendo que faltavam poucas, rói o caroço.
Já não tenho tempo para lidar com mediocridades. Não quero estar em reuniões onde desfilam egos inflados. 
Inquieto-me com invejosos tentando destruir quem eles admiram, cobiçando seus lugares, talentos e sorte. 
Já não tenho tempo para projetos megalomaníacos. 
Já não tenho tempo para conversas intermináveis para discutir assuntos inúteis sobre vidas alheias que nem fazem parte da minha. 
Já não tenho tempo para administrar melindres de pessoas que, apesar da idade cronológica, são imaturas. 
Detesto fazer acareação de desafetos que brigaram pelo majestoso cargo de secretário geral do coral ou semelhante bobagem, seja ela qual for. 
Meu tempo tornou-se escasso para debater rótulos, quero a essência, minha alma tem pressa... 
Sem muitas jabuticabas na bacia, quero viver ao lado de gente humana, muito humana; que sabe rir de seus tropeços, não se encanta com triunfos, não se considera eleita antes da hora, não foge de sua mortalidade, defende a dignidade dos marginalizados, e deseja tão somente andar ao lado 'dos seus' [adaptação agnóstica]. 
Caminhar perto de coisas e pessoas de verdade, desfrutar desse amor absolutamente sem fraudes, nunca será perda de tempo. O essencial faz a vida valer a pena. Basta o essencial!
O texto foi retirado do perfil oficial de Rubem Alves no Facebook, disponibilizado em 23 de dezembro de 2013, compartilhado da linha do tempo do Geraldo Prado e com uma sutil adaptação agnóstica, substituindo o original 'ao lado de deus' por 'ao lado dos seus'. Após uma breve pesquisa na web, encontrei um texto muito semelhante, em algumas passagens praticamente idêntico, intitulado 'Tempo que Foge', de Ricardo Gondim, publicado em 10 de maio de 2008.
Independentemente da autoria e da crença do autor, o texto fala muito do meu sentimento e do meu estado de espírito atuais.
E as jabuticabas poderiam ser trocadas por bolinhas de cinamomo...