Para começar a semana, uma performance de um dos maiores músicos do século passado: Frank Zappa.
Na música: primou o experimentalismo e a atitude, sendo um dos criadores da ideia de fusion no rock.
Na política: crítico radical do 'american way of life' - foi candidato independente à Presidência da República em duas ocasiões, se não estou enganado.
No clipe, Bobby Brown, um do seus grandes sucessos.
domingo, 25 de julho de 2010
sexta-feira, 23 de julho de 2010
Flying Dog
Final da tarde liga o Felipe Oliveira e me convida para tomar uma cerveja num bar germânico recentemente inaugurado na imediações da Ramiro. Acabamos nós dois e o Antônio Carlos Tovo sentados juntos, jogando conversa fora. O Rafael Canterji nos brindou com a sua ausência.
Tomei uma tradicional Erdinger - cerveja de trigo que gosto muito.
No momento da saideira, pergunto ao garçom sobre a Flying Dog, bebida norte-americana indicada na carta.
Resposta: "é uma dobble pale ale, escura, muito forte, de elevado teor alcoólico (8,3%)." Imediatamente e em coro: "é esta! manda!"
Tomei uma tradicional Erdinger - cerveja de trigo que gosto muito.
No momento da saideira, pergunto ao garçom sobre a Flying Dog, bebida norte-americana indicada na carta.
Resposta: "é uma dobble pale ale, escura, muito forte, de elevado teor alcoólico (8,3%)." Imediatamente e em coro: "é esta! manda!"
O cão em fúria no rótulo expressa o sabor da cerveja e os efeitos que provoca no organismo.
Uma hora depois aterrizei em casa e nunca eu e o Fred nos entendemos tão bem.
quinta-feira, 22 de julho de 2010
Produção Legal de Maconha
A notícia foi veiculada no G1 e enviada pelo Alexandre Rosa.Cidade da Califórnia pode liberar completamente o plantio de maconha. Favoráveis à medida argumentam que ela gera arrecadação e empregos. Legislação ainda deve passar por nova votação.
A cidade norte-americana de Oakland, na Califórnia, pode ser a primeira do país a autorizar completamente o cultivo de maconha.
O conselho da cidade aprovou por 5 votos a 2, com uma abstenção, um plano que licencia plantações de marijuana, onde a erva seria também processada e embalada.
A votação ocorreu depois de mais de duas horas de debate público.
Os parlamentares contrários à medida disseram que ela iria "quebrar" os produtores de maconha medicinal. Os favoráveis argumentaram que ela geraria milhões de dólares à cidade em impostos, movimentaria o comércio e criaria centenas de empregos.
As plantações não teriam limitação, mas seriam pesadamente taxadas e reguladas
Uma licença custaria US$ 211 mil anuais e mais 8% de impostos sobre as vendas seriam cobrados.
Os defensores da medida também disseram que há a possibilidade de Oakland se tornar a capital nacional da maconha, especialmente se os eleitores do estado da Califórnia aprovarem, em novembro, o uso recreacional da substância.
Jeff Wilcox, negociante local, disse ser contra por temer que a cidade vire o "vale do silício" da maconha.
A conselheira Nancy Nadel se disse preocupada com a qualidade do produto e com as questões ambientais envolvidas.
A medida ainda deve ser votada mais uma vez, mas a expectativa é de que seja aprovada.
segunda-feira, 19 de julho de 2010
"O Rappa" na Rocinha
Assisti no final semana ao novo DVD d' O Rappa.
Desde que ouvi no primeiro CD a música "Todo Camburão tem um Pouco de Navio Negreiro", composição do Marcelo Yuka, acompanho a trajetória da banda. Grandes músicos, grande atitude musical, grande postura política.
Mas o legal foi ver que o DVD, gravado ao vivo na Rocinha, foi dirigido pelo Heron Domingues, parceiro 'das antigas'.
Em uma época muito (mas muito) distante, em meados da década de 80, em Santa Maria - a Seatlle gaúcha, como preferem os músicos nativos daquela região -, o Heron fazia a produção da Banda Fuga, uma das maiores representantes do autêntico rock do interior do Rio Grande do Sul (clique aqui para baixar a discografia completa). Na banda que antecedeu a Banda Fuga, bem como durante algum tempo no início da trajetória da própria Fuga, trabalhei diretamente com o Heron - ele na produção e eu como roadie da Banda.
Como anuncia a música do Led Zeppelin: "Good times, Bad times, you know I had my share."
Desde que ouvi no primeiro CD a música "Todo Camburão tem um Pouco de Navio Negreiro", composição do Marcelo Yuka, acompanho a trajetória da banda. Grandes músicos, grande atitude musical, grande postura política.
Mas o legal foi ver que o DVD, gravado ao vivo na Rocinha, foi dirigido pelo Heron Domingues, parceiro 'das antigas'.
Em uma época muito (mas muito) distante, em meados da década de 80, em Santa Maria - a Seatlle gaúcha, como preferem os músicos nativos daquela região -, o Heron fazia a produção da Banda Fuga, uma das maiores representantes do autêntico rock do interior do Rio Grande do Sul (clique aqui para baixar a discografia completa). Na banda que antecedeu a Banda Fuga, bem como durante algum tempo no início da trajetória da própria Fuga, trabalhei diretamente com o Heron - ele na produção e eu como roadie da Banda.
Como anuncia a música do Led Zeppelin: "Good times, Bad times, you know I had my share."
domingo, 18 de julho de 2010
(In)Segurança e Medo do Crime
Publicado na última Panóptica (vol. 19, 2010) interessante artigo do Wacquant intitulado Insegurança Social e o Surgimento da Preocupação com a Segurança.
sexta-feira, 16 de julho de 2010
1º Encontro Nacional de Blogueiros Progressistas
Recebi o material de divulgação através da Ivana Regis.O 1º Encontro Nacional de Blogueiros Progressistas acontecerá nos dias 21 (sábado) e 22 (domingo) de agosto em São Paulo, capital. O objetivo é contribuir para a democratização dos meios de comunicação e fortalecer as mídias alternativas. As inscrições já estão abertas. Poderão se inscrever não apenas blogueiros, mas todos os interessados nas novas mídias sociais.
O encontro começará no sábado às 9 h, com debate sobre o papel da blogosfera na democratização dos meios de comunicação. Participarão Luiz Carlos Azenha, Paulo Henrique Amorim, Luis Nassif, Eduardo Guimarães, Rodrigo Vianna e Leandro Fortes.
À tarde, ocorrerão sessões com palestrantes para se discutir as questões legais: orientação jurídica para atuar na web, medidas contra ameaças, cerceamento à liberdade de expressão. Também ocorrerão oficinas sobre twitter, videoweb, rastreamento de trolls e debates sobre a sustentabilidade financeira dos blogs.
No domingo, das 9 h à 12 h, em reuniões em grupo, blogueiros dos vários estados trocarão experiências e discutirão os desafios da blogosfera. À tarde, plenária para apresentação, discussão e aprovação da Carta do 1º Encontro Nacional dos Blogueiros.
O evento será gravado e, depois, disponibilizado na rede.
Inscrições, passagens, acomodações e refeições: contato@baraodeitarare.org.br ou telefonar para (011) 3054-1829 begin_of_the_skype_highlighting ou (011) 3054-1829 end_of_the_skype_highlighting. Falar com a Daniele Penha.
Comissão Organizadora: Luiz Carlos Azenha, Altamiro Borges, Conceição Lemes*, Paulo Henrique Amorim, Eduardo Guimarães, Conceição Oliveira, Antonio Arles, Renato Rovai, Rodrigo Vianna e Diego Casaes.
quinta-feira, 15 de julho de 2010
Tédio, Crime e Criminologia
Disponibilizo o artigo "Tédio, Crime e Criminologia: um Convite à Criminologia Cultural", do Professor Jeff Ferrell, publicado na Revista Brasileira de Ciências Criminais (ano 18, n. 82, jan-fev 2010), que tive a oportunidade de traduzir.
Ferrell - Tédio Crime e Criminologia
Ferrell - Tédio Crime e Criminologia
terça-feira, 13 de julho de 2010
Criminologia e Sistemas Jurídico-Penais Contemporâneos
Publicado em e-book, nesta semana, o novo livro do Programa de Pós-Graduação em Ciências Criminais da PUCRS, intitulado Criminologia e Sistemas Jurídico-Penais Contemporâneos II, organizado pela Ruth Gauer. Para baixar na íntegra, clique aqui.Na coletânea publico minha última participação como integrante do quadro docente do Programa, em artigo intitulado Substitutivos Penais na Era do Grande Encarceramento.
Mas o que me tocou (muito) nesta obra, para além do encerramento de um importante ciclo da minha vida, foi a dedicatória do Timm no artigo O Nervo Exposto. Fico emocionado ao lembrar da ocasião em que o artigo foi lido, o que representou naquele momento e o que significa hoje.
domingo, 11 de julho de 2010
Violência de Gênero: O Caso Bruno
A Lis Pasini - antropóloga que recentemente foi motivo de um post aqui no Antiblog - enviou por e-mail um dos melhores textos que li sobre o Caso Bruno - que creio deveria ser nominado Caso Elisa.O texto é da Débora Diniz e foi publicado no Estadão, hoje.
Patriarcado da Violência
Debora Diniz - Antropóloga e Proferrosa da UnB
A brutalidade não é constitutiva da natureza masculina, mas um dispositivo de uma sociedade que reduz as mulheres a objetos de prazer e consumo dos homens
Eliza Samudio está morta. Ela foi sequestrada, torturada e assassinada. Seu corpo foi esquartejado para servir de alimento para uma matilha de cães famintos. A polícia ainda procura vestígios de sangue no sítio em que ela foi morta ou pistas do que restou do seu corpo para fechar esse enredo macabro. As investigações policiais indicam que os algozes de Eliza agiram a pedido de seu ex-namorado, o goleiro do Flamengo, Bruno. Ele nega ter encomendado o crime, mas a confissão veio de um adolescente que teria participado do sequestro de Eliza. Desde então, de herói e "patrimônio do Flamengo", nas palavras de seu ex-advogado, Bruno tornou-se um ser abjeto. Ele não é mais aclamado por uma multidão de torcedores gritando em uníssono o seu nome após uma partida de futebol. O urro agora é de "assassino".
O que motiva um homem a matar sua ex-namorada? O crime passional não é um ato de amor, mas de ódio. Em algum momento do encontro afetivo entre duas pessoas, o desejo de posse se converte em um impulso de aniquilamento: só a morte é capaz de silenciar o incômodo pela existência do outro. Não há como sair à procura de razoabilidade para esse desejo de morte entre ex-casais, pois seu sentido não está apenas nos indivíduos e em suas histórias passionais, mas em uma matriz cultural que tolera a desigualdade entre homens e mulheres. Tentar explicar o crime passional por particularidades dos conflitos é simplesmente dar sentido a algo que se recusa à razão. Não foi o aborto não realizado por Eliza, não foi o anúncio de que o filho de Eliza era de Bruno, nem foi o vídeo distribuído no YouTube o que provocou a ira de Bruno. O ódio é latente como um atributo dos homens violentos em seus encontros afetivos e sexuais.
Como em outras histórias de crimes passionais, o final trágico de Eliza estava anunciado como uma profecia autorrealizadora. Em um vídeo disponível na internet, Eliza descreve os comportamentos violentos de Bruno, anuncia seus temores, repete a frase que centenas de mulheres em relacionamentos violentos já pronunciaram: "Eu não sei do que ele é capaz". Elas temem seus companheiros, mas não conseguem escapar desse enredo perverso de sedução. A pergunta óbvia é: por que elas se mantêm nos relacionamentos se temem a violência? Por que, jovem e bonita, Eliza não foi capaz de escapar de suas investidas amorosas? Por que centenas de mulheres anônimas vítimas de violência, antes da Lei Maria da Penha, procuravam as delegacias para retirar a queixa contra seus companheiros? Que compaixão feminina é essa que toleraria viver sob a ameaça de agressão e violência? Haveria mulheres que teriam prazer nesse jogo violento?
Não se trata de compaixão nem de masoquismo das mulheres. A resposta é muito mais complexa do que qualquer estudo de sociologia de gênero ou de psicologia das práticas afetivas poderia demonstrar. Bruno e outros homens violentos são indivíduos comuns, trabalhadores, esportistas, pais de família, bons filhos e cidadãos cumpridores de seus deveres. Esporadicamente, eles agridem suas mulheres. Como Eliza, outras mulheres vítimas de violência lidam com essa complexidade de seus companheiros: homens que ora são amantes, cuidadores e provedores, ora são violentos e aterrorizantes. O difícil para todas elas é discernir que a violência não é parte necessária da complexidade humana, e muito menos dos pactos afetivos e sexuais. É possível haver relacionamentos amorosos sem passionalidade e violência. É possível viver com homens amantes, cuidadores e provedores, porém pacíficos. A violência não é constitutiva da natureza masculina, mas sim um dispositivo cultural de uma sociedade patriarcal que reduz os corpos das mulheres a objetos de prazer e consumo dos homens.
A violência conjugal é muito mais comum do que se imagina. Não foi por acaso que, quando interpelado sobre um caso de violência de outro jogador de seu clube de futebol, Bruno rebateu: "Qual de vocês que é casado não discutiu, que não saiu na mão com a mulher, né cara? Não tem jeito. Em briga de marido e mulher, ninguém mete a colher". Há pelo menos dois equívocos nessa compreensão estreita sobre a ordem social. O primeiro é que nem todos os homens agridem suas companheiras. Embora a violência de gênero seja um fenômeno universal, não é uma prática de todos os homens. O segundo, e mais importante, é que a vida privada não é um espaço sacralizado e distante das regras de civilidade e justiça. O Estado tem o direito e o dever de atuar para garantir a igualdade entre homens e mulheres, seja na casa ou na rua. A Lei Maria da Penha é a resposta mais sistemática e eficiente que o Estado brasileiro já deu para romper com essa complexidade da violência de gênero.
Infelizmente, Eliza Samudio está morta. Morreu torturada e certamente consciente de quem eram seus algozes. O sofrimento de Eliza nos provoca espanto. A surpresa pelo absurdo dessa dor tem que ser capaz de nos mover para a mudança de padrões sociais injustos. O modelo patriarcal é uma das explicações para o fenômeno da violência contra a mulher, pois a reduz a objeto de posse e prazer dos homens. Bruno não é louco, apenas corporifica essa ordem social perversa.
Outra hipótese de compreensão do fenômeno é a persistência da impunidade à violência de gênero. A impunidade facilita o surgimento das redes de proteção aos agressores e enfraquece nossa sensibilidade à dor das vítimas. A aplicação do castigo aos agressores não é suficiente para modificar os padrões culturais de opressão, mas indica que modelo de sociedade queremos para garantir a vida das mulheres.
sábado, 10 de julho de 2010
O Segredo dos Teus Olhos
Vi o filme por indicação do Xande Wunderlich.Para falar a verdade, ele pegou o filme, deixou na minha mesa e me disse: "velho, não venha para o escritório amanhã sem ter visto esta obra de arte." O filme é extraordinário, simplesmente.
Recentemente finalizou este texto e autorizou a publicação no Antiblog.
El Secreto de Sus Ojos: quatro leituras sobre a paixão
Alexandre Wunderlich - Professor de Direito Penal na PUCRS
O Segredo dos Seus Olhos, drama romântico-policial dirigido por Juan José Campanella (Argentina-Espanha/2009), adaptado do romance La pregunta de sus ojos, de Eduardo Sachari.
O filme
Benjamín Espósito (Ricardo Darín) é uma espécie de secretário de diligências do Ministério Público, com atuação no Juízo Penal, que acaba de se aposentar. Longe da cena judiciária, Benjamín decide escrever um livro sobre um caso de homicídio ocorrido há mais de vinte anos. De início, procura a sua antiga chefe, a Doctora Irene Menéndez Hastings (Soledad Villamil), que, nos dias atuais, representaria a Promotoria de Justiça — o filme transcorre em 1974, quando o MP não tinha a configuração atual.
Durante anos, “Benja” atuou ao lado da polícia judiciária nas investigações de crimes. O prestativo agente contava com o apoio de Pablo Sandoval (Guillermo Francella), fiel amigo e colega de cartório judicial. Sandoval é o retrato do típico burocrata (aparentemente) feliz. Funcionário público sem compromisso, simpático e sorridente, encontra na garrafa a razão de seu viver. Para fugir do trabalho, atende ao telefone da repartição, dizendo: ” banco de espermas, setor de doações”.
Procurada, e a fim de auxiliar na escrita do livro, Irene entrega para Benjamín uma antiga máquina de datilografar. Nesse momento, uma rápida frase passa desapercebida para o público leigo. Irene, ao retirar a máquina cheia de poeira de um armário da Corte Penal, declara:” – vai ajudar a escrever, mas deve ser do tempo do caso ‘Petiso Orejudo’”. Refere-se ao famoso caso que data do início do século passado, que é citado por inúmeros criminólogos, do sujeito desajustado desde a infância. A bela Irene fez uma blague com Benjamín, porém o público não tem a obrigação de entender tudo isso.
É nesse contexto que Benjamín inicia a redação de sua novela. Recorda-se, então, do crime bárbaro em que trabalhou, isto é, um violento estupro, seguido de morte. A jovem e bonita vítima era casada com Ricardo Morales (Pablo Rago), a quem Benjamín, diante do visível sofrimento experimentado pelo viúvo, promete prisão perpétua para o culpado.
Duas décadas depois do homicídio, Benjamín Espósito reconstrói o iter criminis: narra como procedeu a apuração dos fatos, o processo e o cumprimento da pena do acusado até a sua inexplicável liberação.
O recorte sobre a investigação prossegue e o roteiro leva o assistente ao passado e ao presente com leveza e rapidez. Ao tempo que reconstrói a história do crime e do processo, tempera o romance com fatos do dia-a-dia contemporâneo.
Fora o excelente drama romântico-policial que fascina a qualquer um — sobretudo quem atua nas Ciências Criminais e quem conhece um pouco da Justiça Penal —, o que me motiva a escrever é sobre a paixão que movimenta o filme ou, ainda, sobre as paixões possíveis que dão cor aos caminhos das pessoas.
A narrativa é, por si só, muito apaixonante e remete ao mundo das paixões de diversas formas e perspectivas — este é o ponto que me interessa.
Paixão 1ª
A localização do autor do delito resolve-se a partir do encontro das cartas do homicida foragido para a sua mãe, em que são citados inúmeros nomes que a princípio nada dizem. Depois, vê-se que são nomes de jogadores de futebol que marcaram a história do “clube do coração” do assassino.
Surge, aqui, a paixão como fanatismo, a paixão clubística. O filme é marcado por uma cena impactante dentro de um estádio, em um jogo do Racing Club. A cena transmite com exatidão a realidade de uma torcida de futebol — é impressionante. O significado que se extrai, nas palavras de Sandoval, é que aquele é um homem, capaz de mudar tudo, mas não muda a sua paixão pelo clube de futebol – muda de rosto, muda de mulher, muda de cidade, muda de trabalho, mas não muda de time; é paixão!
Paixão 2ª
Mas não é só isso. Sandoval, mesmo diante da mira de um revólver, fiel e leal ao amigo Benjamín — é verdade que não tinha muito a perder na vida —, quando indagado qual é o seu nome e se era de fato Benjamín, silencia, vindo a falecer no lugar de seu amigo.
O que se tem, agora, é paixão e desapego. Paixão, pelo bom amigo, que passa o filme sempre pronto para ajudá-lo; desapego, por sua vida desregrada e marcada pelo álcool. Mais do que nunca, reside aqui a paixão de um amigo pelo outro, capaz de levar à morte.
Paixão 3ª
Outra paixão é a do viúvo por sua esposa assassinada. Passam-se os anos e o homem segue na luta por Justiça — na verdade, sedento por Justiça. Passa o tempo e o assassino não cumpre a pena. Isso se deve a inúmeras razões, especialmente aquelas que sempre acabam por definir o Estado, ainda no tempo das ditaduras, como inoperante, ineficaz e, sobretudo, injusto.
A paixão do viúvo leva à paixão por Justiça. Diante da injustiça, da ausência do Estado, o justo é fazer o assassino cumprir a pena – seja de qualquer maneira. O viúvo torna-se carcereiro e consegue, então, manter o assassino preso em uma cela, especialmente preparada, na fazenda onde reside.
Enfim, o condenado cumpre a sua pena — aqui, o silêncio é a tortura. A leitura é a seguinte: onde não autuou o Estado, atuou o homem. Vale frisar, contudo, que o viúvo é um homem apaixonado, não um homem sem paixão. É um homem capaz de romper os limites e buscar a sua forma particular de fazer Justiça. Há, aqui, a paixão por vingança e por Justiça que, mesmo passados os anos, ainda impera no seu coração.
Paixão 4ª
Entretanto, a paixão essencial que move a narrativa é outra: diz respeito a Benjamín e a Irene. Ambos trabalharam juntos por mais de 20 anos. Entre olhares e gestos reveladores que não conseguem ocultar os pensamentos íntimos, eles passaram a vida em distância: perto-longe; juntos-separados. Ele acompanha o casamento dela com um sujeito que tem mais de cinco sobrenomes. Há uma passagem no filme que, diante dela, Benjamín é humilhado por um policial inescrupuloso – “você não é para ela”!
Eram contextos diferentes. Durante muitos anos, ele soube o seu lugar. Ficou assistindo à vida passar. Sozinho. Ela casou e teve filhos. E depois de vinte e cinco anos, aquela paixão não se apagou. Estava acesa. Não sucumbiu. Não era algo que o tempo pudesse abafar. Bastava um olhar... Uma palavra... O filme apresenta esta paixão impossível que, ao final, acaba por tornar-se uma realidade.
Então, o que o filme me trouxe como espectador? Que as grandes ações exigem paixão. Que não existe uma racionalidade pura. Que não se pode mudar a ordem natural das coisas sem paixão. Que talvez as grandes mudanças de uma vida ocorrem em razão da paixão. Afinal, boas e más paixões levam às boas e às más mudanças.
Uma paixão pode ser aguda e violenta, pode ser duradoura e profunda. Paixões em suas inúmeras formas, cores e cheiros. Mas, afinal, o que motiva o ser humano para além da paixão? O que faz o homem caminhar? Nada além da paixão. A paixão pelo clube. A paixão que leva ao crime e que leva à morte. A paixão patológica. A paixão por justiça, que é paixão de se buscar. A paixão por amor, que é paixão de felicidade ou de sofrimento. Não se pode, de nenhuma forma, viver sem paixão. Já dizia o poetinha "Ser feliz é viver morto de paixão."
quarta-feira, 7 de julho de 2010
Música, Cultura de Paz e Mudanças
O Paulinho Caleffi me enviou por e-mail.
O projeto "Playing for Change" é auto-explicativo. Uma das iniciativas mais emocionantes que vi ultimamente.
"Temos a Arte para não morrer de Verdade", relembro a frase do Frederico que postei recentemente.
O projeto "Playing for Change" é auto-explicativo. Uma das iniciativas mais emocionantes que vi ultimamente.
"Temos a Arte para não morrer de Verdade", relembro a frase do Frederico que postei recentemente.
sábado, 3 de julho de 2010
Ridiculum Vitae
De tarde, um amigo - colega do docência - havia ligado: "velho, te indiquei para dar uma entrevista para a imprensa marrom. Sistema carcerário. Disse que tu entendia do assunto e que a tua experiência no Conselho Penitenciário era importante de ser relatada".O sujeito responde: "Pô, não ph...! Sabes que não gosto de imprensa. A gente fala uma coisa e os jornalistas - e, sobretudo, o público - sempre entendem outra..."
Chega em casa de noite, depois da aula, pronto para jantar com a mina e tomar um vinho. Telefone toca. Número desconhecido.
Primeiro impulso: não atender.
O sujeito reluta. O fone para de tocar. Toca novamente... Atende.
"Dr., é da redação da imprensa marrom, o Sr. teria um tempinho..."
O cara elabora: "Tudo bem, é interessante publicizar o que se pensa sobre o tema."
Longa entrevista, cerca de 30 minutos.
No final, repensa: "acho que ficou bom, não há o que se preocupar, o cara entendeu meu ponto de vista."
Resultado: a entrevista é publicada (aqui) e o sujeito, que até então se pensava abolicionista, vira um entusiasta das práticas da Polícia Militar no sistema carcerário.
Ridiculum Vitae!
Sobre Futebol e Culpabilizações
Foi terminar o jogo e as manchetes da nossa imprensa sensacionalista eram uníssonas: "De heroi a vilão". Na capa dos principais tablóides eletrônicos (v.g. Uol, Globo On Line, Terra) a mesma chamada - o que demonstra a pasteurização e a falta de criatividade da imprensa marrom. "Jornalixo puro", diria um amigo 'das antiga'.A falta de capacidade de uma reflexão um pouco mais elaborada sobre um fenômeno nada complexo sobre o futebol - se comparado à questão da violência, p. ex. - deixa evidenciada as marcas do jornalismo autal: superficialidade e moralização da informação.
E o principal sintoma da moralização são os processos de culpabilização: identificar o inimigo, o vilão ou o aliado, o heroi. Neste pêndulo maniqueísta próprio dos pânicos morais nossa sociedade goza.
Causas da desclassificação: inúmeras; nenhuma determinante. Culpados: existem? É possível direcionar toda a raiva para o técnico - que não chamou quem a imprensa queria para manter ainda mais coeso o grupo com que vinha trabalhando desde 2006? -, o volante - pelo estado emocional? -, o goleiro - pela falha no primeiro gol?
Prefiro não culpar ninguém, pois não creio que exista "O" culpado. Fiquei triste e vou seguir assistindo aos jogos - com especial preferência pela esquadra celeste, neste momento. E esperar a continuidade do que efetivamente me interessa neste ano: Libertadores da América.A propósito: sobre a complexidade da violência, das culpas, das demonizações e das resoluções de conflitos, o GCrim assistirá nesta semana o filme Desonra, com John Malkovich, baseado no livro homônimo do Nobel de literatura J. M. Coetzee. De conteúdo assustador...
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