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sábado, 13 de agosto de 2011

“Na Minha Época...” (ou Saudades do Futuro)


Nas duas últimas semanas presenciei ou participei de algumas conversas aparentemente distintas. Mas que inegavelmente apresentam pontos de tensão ou de unidade que merecem reflexão.

Cena 01
No escritório recebo um amigo que havia muito que não conversava. Colega mais novo que, como muitos amigos, optaram pela dupla militância na academia e na advocacia. Pergunto como vão as aulas – que é uma espécie de cortesia como o “tudo bem, como estás?”, ou seja, algo que deve ser respondido apenas com um “tudo tranqüilo” para que a conversa tenha início e tome outros rumos – e recebo a resposta: “Horrível. Meus alunos não se interessam pela matéria, não freqüentam a biblioteca, não estudam, sequer têm o hábito da leitura. Na minha época... (blá, blá, blá)”. A partir do “na minha época” entrei em modo stand by, fiquei concordando mecanicamente com o colega, sem prestar atenção alguma no enfadonho discurso até o momento do “então era isso, forte abraço, bom falar contigo”.

Cena 02
Em uma mesa de bar, festa de um grande amigo, reunido com pessoas não-jurídicas, atento para o debate entre uma mulher de uns cinqüenta anos e um jovem de vinte e poucos. A mulher, militante de esquerda “das antiga”, discursa – militante de esquerda “das antiga” não conversa, sempre discursa – sobre o uso político da linguagem e da necessidade de marcar os lugares de poder e de opressão. O jovem recém formado – bastante culto, “politizado”, recém retornando ao Brasil de período relativamente longo de vida na Europa – rebate, argumentando de forma muito convincente que aquele tipo de preocupação não fazia mais sentido na atualidade e que o uso “politicamente correto” de determinados termos e em determinadas situações apenas reforça os estigmas que pretende derrubar. A militante replica sustentando que “na minha época...”. Stand by, sinais mecânicos de concordância...

Cena 03
Em um veículo de comunicação, um colega discursa, de forma muito emotiva e enfática, sobre a “crise de valores da juventude contemporânea”. Conclama (e este é o termo exato), com toda a verborragia empolada que os anos de advocacia lhe ensinaram e com um tom que lembra algo entre um sermão eclesiástico e um discurso motivacional de empreendedores de vendas, as pessoas para que façam uma reflexão sobre a perda dos referenciais no mundo atual. Valores da família, valores da amizade, valores da comunidade e valores políticos, postos todos como valores afetivos, são figuras abstratas invocadas para contrapor a abstrata crise de valores do mundo de hoje. Argumenta que “na minha época...”. Desligo.

O que me assusta nestes discursos não é apenas o fato de ver pessoas jovens idealizarem um passado romantizado que possivelmente não aconteceu. Em alguns momentos tenho vontade de ser indelicado e dizer: “tchê, fica quieto, tu não leu nada durante a tua Faculdade”; “tchê, para com isso, este discurso não faz o menor sentido nos dias de hoje”; “tchê, acorda, que valores são esses invocados em forma de verdade?
Não sei qual o processo mental que consagra a idealização e faz com que as pessoas acreditem em memórias ilusórias.
O que realmente me assusta nestes discursos é sua potência violenta, autoritária. Uma potência violenta que legitima o prolator do discurso definir quais as ações que devem ser realizadas, qual a linguagem a ser utilizada, quais são as virtudes que devem ser valorizadas. O restante, o que sobra, o que está fora dos horizontes morais definidos pelo detentor da moral, é heresia. Aos hereges, a inquisitio.
Bueno, apenas para registro: sou fã da juventude atual. Vejo nos jovens de hoje preocupações muito mais factíveis e chãs que aquelas da “minha época”. A descrença que a contemporaneidade impôs nas grandes narrativas, nos grandes sistemas políticos, nas grandes perspectivas que iriam mudar o mundo, definiu uma nova forma de a juventude atuar politicamente.
Não vejo nenhuma alienação, não vejo nenhuma idiotia reinante. Pelo contrário. Vejo a subversão de velhos valores morais. E celebro esta subversão.
Vejo uma juventude preocupada com questões que na antiga política seriam questões menores. Mas são questões que afetam o cotidiano, a vida das pessoas.
Vejo uma juventude que abdicou dos discursos salvacionistas.
Por isso mesmo não tenho saudade nenhuma do passado (real ou romantizado). Tenho saudade do futuro.

15 comentários:

Moysés Neto disse...

Teenage riot!

http://www.youtube.com/watch?v=4z_ipRtcnqM

Zé disse...

Saudade do presente.

SC disse...

hehehe, tá certo. do presente também!

Marcelo Mayora disse...

O Caetano disse mais ou menos isso na música chamada Saudosismo.

Duas antropólogas que gostam muito também escreveram algo semelhante:

“Nossa proposta, ao contrário, deixou-se embalar pela obstinação em perseguir o traçado do novo, sem a contaminação da nostalgia, a aura do horror e do trágico, da decomposição dos valores, e do obscurantismo. Ainda que se tornasse arriscada a tarefa de deixar de lado o “arsenal profilático” de cautelas para se lidar com os “fantasmas morais” que assolam a subjetividade contemporânea – cultura do espetáculo e do narcisismo, processos de estetização da existência, expansão maciça dos meios de comunicação, TV, informática, Internet -, acreditamos ter ultrapassado essa perigosa tentação em direção à conquista de bons resultados finais. Tentamos operar em terreno “descampado”, procurando perseguir a positividade do que hoje se manifesta em tornos dos novos desenhos e produções de sentido no campo da subjetividade e das formas de expressão da cultura jovem nas grandes metrópoles”. (ALMEIDA E TRACY, NOITES NÔMADES, p. 23)

gabrieldivan disse...

"Esse mundo de MERDA esta GRAVIDO de um mundo bem melhor" (Galeano, na rua, passeando em meio as barracas de estudantes na Espanha)

SC disse...

claro que tenho muita consciência da idealização que é falar "na juventude atual". a ideia do texto foi pontuar não tanto as virtudes de uma certa juventude contemporânea, mas o autoritarismo dos discursos morais. e viva o presente!, como lembra o zé linck.

Danilo N. Cruz disse...

Salo,

Esse é o tipo de discurso estático, afinal, há dois dias na vida em que não podemos fazer absolutamente nada, o ontem e o amanhã.

E a falta de adaptação ao hoje remete à fuga, seja para a nostalgia, seja para o porvir...

Grande abraço, te espero no Piauí Jurídico.

Danilo N. Cruz
http://piauijuridico.blogspot.com/

Anônimo disse...

isso me lembra esse acampamento do 20 de setembro. Um bando de malucos acampados em um parque tentando resgatar uma época que não viveram e muito menos uma guerra que não sentiram.

SC disse...

boa anônimo, muito boa... excelente comparação.
danilo, concordo contigo. escolhi outro tipo ideal para dicotomizar. foi consciente (ou não... heheh). mas de vez em quando os estereótipos contrapostos podem ser didáticos.
viva o presente!

Diego Mendes disse...

"Nossos ídolos
Ainda são os mesmos
E as aparências
As aparências
Não enganam não
Você diz que depois deles
Não apareceu mais ninguém
Você pode até dizer
Que eu estou por fora
Ou então
Que eu estou enganando...
Mas é você
Que ama o passado
E que não vê
É você
Que ama o passado
E que não vê
Que o novo sempre vem..."

Mucão disse...

Meras reflexões despretensiosas a partir do texto:
a) não se pode ignorar o passado tanto quanto não se pode viver (n)ele;
b) voltar ao passado talvez seja uma experiência reflexiva necessária para relembrar velhos ensinamentos. No entanto, sempre é preciso saber se eles servem para o hoje ou se perderam sua validade ao longo do tempo;
c) não tenho saudades do futuro, até porque o desconheço. Paradoxalmente, tenho pra mim que o otimismo vive no presente - é ele que impulsiona o agir no hoje. O otimismo que habita o futuro já não tem, ao meu ver, razão de ser: nada mais é do que a utopia do comodista (e o hoje, camarada?);
d) e vou ousar discordar de ti e dizer que vejo sim uma forma de alienação muito grave no presente (ao menos no nosso contexto social mais próximo): uma grande tentativa em se manter indiferente às transformações, ao mundo, abraçando tão somente as lutas pela manutenção do 'status quo'.

Abraço, Salo!

Anônimo disse...

Concordo com o posicionamento sobre a juventude atual , acho os jovens de hoje revolucionários,que buscam seus direitos , envolvidos com política e um pouco mais "humanos" e responsáveis. Por outro lado, acho correto (em partes) o discurso do seu amigo na cena 1 , estudantes de Direito que não tem o hábito de ler , que não se interessam pela matéria e não vão a biblioteca , é algo preocupante. Se isso não mudar , continuaremos formando advogados , aprovados na OAB por cursinhos e que não sabem ao menos o conceito de Justiça.

Anônimo disse...

Mas nem a OAB sabe o que é justiça. Mais da metade desses advogados chamam de justiça quando ganham a causa, assim, justiça foi feita:ganhei meus honorários. O próprio presidente dessa "ordem nacional" não reconhece esses termos. Só conseguiremos formar advogados quando o professor advogado resolver enfrentar a causa. Veja: como um prof de direito, advogado civil, com clientes de poder econômico, vai questionar o "direito" de propriedade que seu cliente "abandonou" e foi ocupado por necessitados!Onde vai estar a justiça, ao lado de quem invadiu e precisa de moradia ou ao lado do proprietário que deixou a esmo a propriedade, quero ver esse professor fazer a Justiça,argumentar o dever social e tal.

GWB disse...

aflige-me muito o queixume. aquelas pessoas que se queixam sobre como as coisas são, que no passado é melhor, é que era. "preocupam-se", julgam-se incompreendidos e desta forma desresponsabilizam-se da tarefa de encontrar fórmulas diferentes das que usam para, pelo menos, tentarem reinstaurar esta ordem que se perde em algum lugar do seu tempo.

Thiago disse...

Show de bola Salo!!!..outro exemplo desse movimento é dos ativistas mascarados....