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domingo, 1 de maio de 2011

Drogas e Encarceramento no Brasil

Uma Lei que Pegou Demais
[Revista Época, edição de 30 de Abril de 2011, Caderno Sociedade]
A legislação antidrogas previa encaminhar os dependentes para tratamento. Eles estão indo – em grande número – para a cadeia.

A Lei nº 11.343, sobre o tráfico de drogas, foi criada em 2006 com uma inovação: reconhecia a figura do usuário e dava a ele tratamento diferente do recebido pelo traficante. A legislação foi comemorada como um avanço. Esperava-se que, com o novo texto, usuários deixassem de ser mandados para as prisões, onde se misturavam aos verdadeiros bandidos. Cinco anos depois, constata-se que o maior reflexo da lei é o aumento da população carcerária. Um estudo feito por Pedro Abramovay, professor de Direito da Fundação Getulio Vargas (FGV), e Carolina Haber, professora de Direito Penal da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), mostrou que, de 2007 a 2010, o número de presos por tráfico aumentou 62% – de 65.494 pessoas para 106.491.
Em três anos, o tráfico de entorpecentes ultrapassou o crime de roubo qualificado como tipo penal mais comum nas prisões.
Alguém poderia dizer que mais traficantes presos significa menos drogas nas ruas. Não foi o que ocorreu. “Não se tem indício de que o consumo esteja caindo, que o tráfico esteja diminuindo ou que a polícia esteja funcionando melhor”, diz Abramovay, que até janeiro era o secretário nacional de Políticas sobre Drogas (Senad), ligado ao governo federal, e foi afastado depois de defender publicamente o fim da prisão para pequenos traficantes.
O estudo revela que a maior parte dos presos são usuários ou pequenos traficantes que fazem o transporte da droga e, uma vez presos, são rapidamente substituídos por outros. Um estudo de 2009 da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e da Universidade de Brasília (UnB) traçou o perfil de quem é preso acusado por tráfico de drogas nas duas cidades: na maioria são pessoas sem antecedentes criminais, que não portavam armas, estavam sozinhas e com pouca quantidade de droga. “São meros
intermediários, e não os comandantes do crime organizado”, diz o juiz Walter Nunes, membro do Conselho Nacional de Justiça (CNJ). “Quando focamos a atuação nos usuários e pequenos traficantes, não estamos combatendo com eficácia esse tipo de crime.”
A lei brasileira reconhece que existe diferença entre usuários e traficantes de drogas, mas não dá critérios objetivos para diferenciá-los. Diz que o policial deve se ater “à natureza e à quantidade da substância apreendida, ao local e às condições em que se desenvolveu a ação, às circunstâncias sociais e pessoais, bem como à conduta e aos antecedentes do agente”. Torna-se uma questão de interpretação do policial, que pode ou não ser confirmada posteriormente pelo juiz do caso. “A falta de regras claras estimula a corrupção do policial”, diz Salo de Carvalho, professor de ciências penais da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS).
Numa noite de fevereiro de 2010, Flávio (nome fictício) estava parado no balcão do bar de uma casa noturna de São Paulo quando foi abordado por policiais. Em seus bolsos foram encontrados quatro papelotes de cocaína (cerca de 3 gramas da droga) e R$ 150. A quantidade de dinheiro, a droga pronta para a venda e o local propício a essa atividade levaram os policiais à conclusão de que Flávio era um traficante. Universitário de 23 anos, estagiário de uma multinacional e sem antecedentes criminais, ele não passava de um usuário. Em vez de receber tratamento para o vício, foi mandado para a prisão, onde passou quatro meses e só foi solto porque sua família tinha condições para contratar um advogado que provasse que Flávio nunca vendera drogas. “É um caso recorrente causado pela falta de critérios para fazer a distinção”, diz Augusto Arruda Botelho, advogado de Flávio, que diz já ter defendido um homem de 30 anos que passou 40 dias preso ao ser flagrado com 10 gramas de maconha e 3 gramas de haxixe. Situação pior vive quem é pobre. “O principal critério para alguém ser condenado é a situação econômica do réu”, afirma o defensor público Bruno Shimizu. Ele diz que o primeiro filtro – a abordagem policial – depende dos estereótipos sociais. “Pobre é desfavorecido. É tratado com preconceito pelos policiais e tem menos condições de contar com um bom advogado.
Países europeus estabelecem critérios objetivos para diferenciar usuário e traficante. Cabe ao policial aplicar a lei, e não interpretá-la. Na Holanda, quem tem até 5 gramas de maconha é considerado usuário e terá encaminhamento na esfera médica, não criminal. Em alguns Estados da Alemanha, o limite é 30 gramas de maconha, 5 gramas de cocaína e 2 gramas de heroína. Portugal estabelece limites maiores, por considerar que o usuário pode ter consigo drogas para consumir em dez dias. A Espanha criou uma tabela com quantidades que determinam se alguém é usuário, pequeno, médio ou
grande traficante. “Nossa lei precisa de critérios mais rígidos”, diz o advogado Antônio Cláudio Mariz de Oliveira.
No Senado, tramita um projeto de lei que prevê detenção, de seis meses a um ano, do usuário de drogas. Também abre a possibilidade para o juiz substituir a pena por tratamento especializado, que deixaria de ser voluntário. O senador Demóstenes Torres (DEM), autor da ideia, afirma: “O projeto é uma resposta à fracassada despenalização do uso de entorpecentes. Familiares, educadores e o Poder Judiciário ficam de mãos atadas para internar o usuário. O projeto repara esse equívoco”. A ideia esbarra na falta de infraestrutura do Sistema Público de Saúde (SUS) em oferecer tratamento gratuito. Sem essa possibilidade, o usuário corre o risco de ter de cumprir a pena.
A hipótese de manter encarceradas pessoas que não são criminosas contrasta com a superlotação no sistema prisional brasileiro. Em dezembro do ano passado, o número de presos era 66% maior que a quantidade de vagas. Segundo uma estimativa do Ministério da Justiça, cada preso custa, por mês, R$ 1.800 no sistema carcerário estadual e R$ 3.312 no sistema federal. “Também há o risco de que, quando um pequeno criminoso é solto, sai com conhecimento do crime muito superior ao que tinha – se é que tinha algum”, diz Mariz de Oliveira.
Além de ineficiente, não é bom negócio manter consumidores de drogas na cadeia. 

11 comentários:

Anônimo disse...

Só para não deixar passar em branco a contradição, que "comodamente" é esquecida, entre os arautos do movimento antimanicomial e os que reclamam que os usuários (nem todos) não têm a atenção devida enquanto pessoas necessitando de tratamento.
Devido a quase extinção dos hospitais psiquiátricos com internação compulsória, simplesmente não há onde/como se tratar os drogaditos com grau de dependência médio e severo. No momento da crise, são internados para, horas ou um dia depois serem liberados para, voluntariamente, prosseguirem o tratamento no CAPES-AD. Nem 20% retornam (dos casos graves de dependência). Obviamente, os "libertários" dos movimentos antimanicomiais não estão preocupados em darem resposta ao caos. Uma pena.
Carlos Moreira

Marcos disse...

1 - O encarceiramento aumentou simplesmente porque o comércio e uso de drogas aumentou muito nos últimos anos.
2 - Quem é apenas usuário; que vai na "boca" apenas comprar não é mais preso. Isto é fato.
3 - São presos aqueles pequenos traficantes que traficam para manter o vício (ponta do iceberg do imenso negócio da droga) e aqueles pequenos traficantes que vão levando a vida modestamente, ligados a gerentes e grandes traficantes.
4 - Gerentes e grandes traficantes são presos às vezes, porém isto não diminui em nada o tráfico, pois ou eles comandam de dentro das cadeias ou são rapidamente substituídos (às vezes por meio de sangrentas batalhas).
5 - O que a polícia e a cadeia fazem é uma "seleção natural", permitindo que tenham relativo sucesso na atividade do tráfico (e também do roubo de carros; etc) aqueles mais valentes e inconsequentes ( e porque não dizer, em certo sentido, inteligentes). Se a atividade policial e do sistema penal diminuísse, as taxas de crimes aumentariam, mas menos do que a maioria das pessoas pensam.
6 - Se a atividade policial e efetividade penal aumentassem, as taxas de tráfico, uso de drogas (além de outros indicadores criminais) certamente diminuiriam, mas menos do que as pessoas em geral esperam, pois o uso de drogas (principalmente drogas "pesadas"), roubos de carros, homicídios, furtos, etc. vêm crescendo por problemas outros que efetividade ou inefetividade penal: 1) Crise do sistema educacional 2) Crise de valores sociais e familiares 3) Crise de modelos de autoridade 4) Crise de modelo representativo político 5) Crise moral.

SC disse...

ou eu não entendi nada da reportagem ou ela trata dos efeitos do encarceramento pela política de drogas. o tema da dependência, se não estou absolutamente enganado, repito, é outro tema. aliás, como parece bastante notório, quem define os limites da reportagem não são os entrevistados, "estes arautos do movimento antimanicomial" (?) - se falou no tema?
mas determinadas evidências teimam em não importar, sobretudo quando se tem verdades tão absolutas em relação a determinadas questões.
dai o diálogo fica inviável e só se houve a histeria dos discursos.

Marcos disse...

Complementando meu comentário...
Conversando com psiquiatra especialista da área, ele me disse que em 10 anos, 8 em cada 10 usuários de crack ou já morreram porque não pagaram dívidas (não tem spc/serasa para este pessoal); ou porque foram mortos enquanto cometiam crimes violentos; ou morreram por causa da droga; ou JÁ ESTIVERAM PRESOS POR COMETER CRIMES VIOLENTOS OU TRÁFICO (em pequena quantidade ou não tão pequena).
Maconha é outra história. Ninguém, ou quase ninguém, é preso por usar maconha e até trocar pequenas quantidades com amigos. Se são pegos são encaminhados pelo judiciário para tratamento e, na prática, se tratam se quiserem, se não, continuam usando a maconha.

Leandro disse...

Marcos, a luta antimanicomial não pode mesmo resolver de forma mágica a cultura antidrogas, que está expressa não somente na matéria da época ou no seu comentário sobre serviços de saúde (afinal dizer que pessoas que usam drogas PRECISAM de internação é uma grande balela, internações são tão eficazes quanto as prisões); a cultura antidrogas também está nas famílias que desejam a internação para se livrarem do problema; também está nas campanhas máfio-midiáticas de prevenção. Seu comentário complementar só reforça o fato de que o buraco é mais embaixo quando pensamos segurança pública. Mas também o é quando pensamos as políticas de saúde. Os manicômios não residem somente a espaços físicos, residem também nas práticas e nos olhares das pessoas que trabalham com saúde. Tenho muitas críticas à demora com que a luta antimanicomial está trabalhando seus preconceitos sobre drogas, mas antes de colocar aspas no potencial libertário dela, colocaria todas elas no seu texto. Editoriais da ZH são bem mais refinados e melhor informados que ele.

Marcelo Mayora disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Marcelo Mayora disse...

Os Shandys são escritores portáteis que são perenemente perturbados por seres não imaginários (golens e odradeks).

Marcelo Mayora disse...

Esqueci de dizer: são escritores portáteis porque escrevem livros portáteis, obviamente.

Anônimo disse...

Sou gaúcho de POA e estou radicado aqui no Paraná há 6 anos, exerço a função de agente penitenciário onde vivencio "corpo a corpo" com os anseios e receios dos drogaditos no Sistema, a aflição deles em ter que compartilhar celas e alojamentos com cidadãos presos, por alguns, da "pesada", faz com que "poluem" forçosamente seu íntimo e por lá compartilham das artimanhas e ensinamentos dos traficantes, latrocidas, 157 "nervosos", enfim aqui que vem o problema em prender usuários e deixar ao alvitre do poder público pessoas que ainda têm um fio de esperança. Deveriam ser encaminhados esses drogaditos, mesmo contra vontade, já que o Brasil ainda prevê situações anômalas na Lei, para (anti)tratamento no (as)SUS(tador).
Parabéns pelo blog e iniciativa do ilustre prof. que trás temas que estão em voga na sociedade e faz, espero, incutir em alguns incrédulos vesgos, enxergar o óbvio!!!

Parabéns,

Juliano Tavares.

Géssica disse...

...e ainda escuto falar mal dos Portugueses por ai, 10 dias é uma beleza, se o cidadão é abordado com quantidade maior do que a necessária para consumir em 10 dias... em situações desfavoraveis a ele, daí sím vamos cogitar que esteja 'passando' algo...

7-2-pontos disse...

Do rio que tudo arrasta, diz-se que é violento. Mas ninguém chama violentas às margens que o comprimem. - Bertolt Brecht

O brasileiro ainda têm voz? Ainda pensa?
Só Deus sabe onde a máquina (Brasil) vai parar..., vá a luta ou seja mais uma engrenagem qualquer ou a descartada... - 7: