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domingo, 16 de outubro de 2011

Sobre a patética participação da OAB/RS no 15 de Outubro


Durante a semana havia conversado com alguns amigos que estudam e participam dos movimentos jovens contemporâneos sobre a tentativa de algumas instituições incorporar o projeto do 15 de Outubro nas suas pautas políticas. Inegavelmente vimos tentativas oportunistas de institucionalizar, na agenda da "velha política", um fenômeno novo marcado por manifestações autênticas e espontâneas. Como todo pensamento ortodoxo que não consegue entender o que está ocorrendo no mundo atual e, em razão desta insuficiência cognitiva, interpreta o novo com os olhos do velho, estas instituições projetaram nas manifestações por democracia real as suas velhas expectativas e as suas mofadas representações.
Dentre os inúmeros equívocos legados do obtuso pensamento autoritário - que permanece como o norte de atuação das instituições contemporâneas - está a concepção de que a sociedade civil, os movimentos sociais e, sobretudo, a expressão individual devem ser tutelados, pois fracos em termos de organização e carentes de projetos "viáveis".
Ocorre que esta ilusão paternalista de ver a sociedade civil e os movimentos sociais acaba inexoravelmente se chocando com o real, como aconteceu ontem na patética participação da OAB/RS na ocupação da Praça da Matriz. Neste aspecto a participação não menos paternalista de alguns partidos políticos e sindicatos foi menos caricata.
A forma de inserção do órgão de representação dos advogados gaúchos na ocupação do centro da cidade foi de um equívoco superlativo. Em inúmeros momentos senti aquilo que pode ser denominado como "profunda vergonha alheia" - e o problema é que não era tão alheia assim, pois sou advogado e conheço grande parte daqueles personagens cômicos que estavam presentes na manifestação.
A caricatura se destaca não apenas pela tentativa de "guiar" as manifestações de um coletivo absolutamente plural, anárquico e alheio às formas tradicionais de representação política - destaco um dos cartazes com os dizeres: "ninguém me representa" -, mas pela postura absolutamente "fora de lugar" dos representantes da OAB/RS ao inserir na agenda do movimento temas vazios e perspectivas moralizadoras como a impunidade e a corrupção - vazios porque não rompem com a mediocridade do senso comum; moralizadores porque sustentam um ideal punitivista absolutamente alheio ao sentido libertário do movimento. Confiram no site da "Ordem" a leitura institucional do movimento, com destaque para os cartazes contra o auxílio reclusão e pela inserção da corrupção no rol de crimes hediondos.
Em uma manifestação autêntica e espontânea, chamou atenção a participação plastificada da OAB/RS -  literalmente plastificada, pois as faixas de material sintético encomendadas em gráficas destoavam dos cartazes pintados e dos panos grafitados artesanalmente, e afirmavam, ética e esteticamente, a insustentabilidade ambiental. Seria mais honesto se os representantes da instituição estivessem engravatados, reivindicando a inclusão da assinatura de TV a cabo nos benefícios da Caixa de Assistência.


11 comentários:

Moysés Neto disse...

Obrigado por expressar tudo que eu gostaria dizer sobre o assunto.

SC disse...

nossas conversas ajudaram a elaborar...

Marcelo Mayora disse...

Perfeito.
Enquanto bufões da OAB batiam ponto na praça, um funcionário pago segurava o cartaz plastificado.
O Caetano diria: "vocês não estão entendendo nada! Nada!".
A praça ficou mais bonito quando a catrefa de oportunistas foi embora.
Eu fiquei tão feliz que... nem me despedi de vocês...

Anônimo disse...

Legal, excelente texto..justiça plastificada passados 500 anos ainda segue poluido a vida civil dos habitantes da terra brasilis.

Anônimo disse...

Eu não sei se digo "papelão da OAB!" ou "papelão da OAB?". Vou ficar com a interrogação. Minha (des)ilusão em um mundo melhor pode ser traduzida nisso: quase todos os movimentos com pautas interessantes, a romper paradigmas, surgem e se perdem - algumas vezes pela postura de insistir no purismo, vendo com desconfiança a adesão (eventualmente legítima) de certas pessoas em seu próprio grupo; noutras vezes perdem-se pela adesão desenfreada que faz acolher bandeiras em demasia, gerando ao final a inexistência de uma bandeira sequer. Essa "medida", quem a saberá com exatidão, e quem a aplicará corretamente? Parece-me que, considerando que um grupo pretende a hegemonia futura de suas ideias, recusar a adesão dos demais pode significar pretender a hegemonia sem a participação efetiva da maioria. E será que é possível derrubar essa lógica da luta pela hegemonia? Será que é efetivo lutar apenas para ser ouvido e atendido, sem fazer com que ao menos uma ideia pontual seja hegemônica, consensual?

Luciana Avila Zanotelli disse...

Perfeito o comentário!!! É incrível como algumas estátuas ainda acham que o movimento popular, para ser válido, deve ser guiado, engendrado pelos pseudo conhecedores!!!

j. disse...

bah, soco no rim! :>

Anônimo disse...

excelente o trecho que citas "Neste aspecto a participação não menos paternalista de alguns partidos políticos e sindicatos foi menos caricata."... Acontece que o 15.O não é uma bagunça, não é uma festa com drogas, bebidas, shows, bem como não é um movimento único e exclusivo de jovens anárquicos... o 15.O é muito mais que isso, pois ele tem sua origem nas pessoas da classe média européia que estão cada vez mais na penúria. O 15.O prega a DEMOCRACIA REAL de uma forma horizontal e participativa, sem a figura de partidos, sindicatos, representantes, líderes... Os militantes da espanha começaram sua luta na época de suas eleições, protestando contra CORRUPÇÃO que assola seu país... já os ativistas árabes acabaram com ditaduras escravagistas que viviam no paraíso enquanto todo o povo ficava na penúria. Se a OAB está numa luta com propostas de combate a corrupção, representando toda uma classe trabalhadora, inclusive integrantes das altas cortes do país, porque condená-la? ... querem conhecer o verdadeiro 15.O, então leiam o blog oficial no Brasil, onde consta inclusive este pequeno trecho:

Resposta nas urnas:

Nesse momento a Espanha estava em período de eleições municipais e estaduais e tamanho era o descontentamento que aproximadamente 40% da população não votou ou votou branco/nulo, já não se sentiam representados pelos políticos e partidos.

Na primeira semana do movimento, alguns partidos políticos e sindicatos tentaram aproximar-se com a intenção de conseguir votos, todos eles foram repudiados pelos prórpri@s indignad@s , deixando claro que o movimento é independente e que principalmente, não são bem-vindos os políticos aproveitadores (classe que todos nós conhecemos bem).

http://www.democraciarealbrasil.org/?page_id=53

João disse...

Ainda que eu concorde com a crítica da política moralista, chamo a atenção para o canto da sereia que é esse papo de "autêntico e espontâneo" -- uma invocação "neo" dos velhos mitos românticos e iluministas do "homem autêntico", "verdade autêntica", "política natural" etc. O cerne da visão de mundo liberal é justamente a aposta numa certa espontaneidade humana intrínseca e transcendental, que justificaria a noção de "mercado auto-regulado", porque baseado num suposto caráter "autêntico e espontâneo" do devir humano. Ainda que, sem dúvida, vc esteja se posicionando no campo da crítica, vc permanece devedor da ontologia própria da tradição moderna.

Anônimo disse...

Perfeito! Ainda bem que alguém disse!
É patético! Não retiro a legitimidade de protestar contra a corrupção, mas o modo de fazê-lo, oportunista, sim. Equivocado também. E é triste ver jovens advogados guiados por velhos modos de fazer política baseado em discursos moralistas e punitivistas. É triste ver a OAB servindo de porta-voz ao populismo. É isso aí...., contra auxílio reclusão, a favor de tornar a corrupção crime hediondo e mais sectarista ainda: criminalizar o desrespeito à prerrogativas do advogado!?! Esse método é muito antigo..... Seria mais honesto, sim, oferecer TV a cabo.... No pacote populista entra, ainda, a inserção da OAB na discussão sobre os hospitais filantrópicos de POA!?! Que isso?!! Por qual partido virá o candidato a cargo eletivo que trará isso em seu currículo!?! É a OAB servindo aos mesmos propósitos que vem servindo os sindicatos..... (pelo menos muitos deles). que pena! que triste! que vergonha!

David Pimentel Barbosa de Siena disse...

Caro Salo,

Parabéns pelo texto e pela lúcida visão sobre os fatos.

A tática é antiga, apenas mudaram de objeto.

Quem não se lembra das "corridinhas" de Fernando Collor durante sua campanha eleitoral?

O final da "estória" é conhecido por todos.

É a velha tática do autoritarismo "cool" tupiniquim!!!

Um abraço de Santo André/SP.