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quinta-feira, 18 de fevereiro de 2010

Prisões e Feminilidades


A Mônica Delfino enviou para o pai. O pai me enviou e eu disponibilizo no Antiblog.
Trata-se da coluna de hoje do Contardo Calligaris na Folha de São Paulo, sobre a questão feminina nos Presídios.

A Lealdade das Mulheres - Contardo Calligaris
Na tarde de quinta-feira passada, estive no Presídio Feminino do Butantã, situado na rodovia Raposo Tavares, longe do bairro paulistano do Butantã.Aconteceu assim: antes do fim de ano, Wagner Paulo da Silva, que eu não conhecia, me escreveu explicando que ele organizava um grupo de leitura regular para detentas desse presídio. O grupo (mais ou menos 25 mulheres) tinha discutido uma de minhas colunas; quem sabe eu me dispusesse a proporcionar um "encontro com o autor"?
Soube depois que Wagner da Silva e Durvalino Peco animam há anos esse grupo de leitura para detentas do presídio do Butantã e, agora, com o apoio do Estado de São Paulo, estendem o programa a 26 penitenciárias da região metropolitana (para isso, eles promovem, na Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo, um curso gratuito de formação de mediadores -as inscrições já estão encerradas, mas vale a pena conferir: www.fespsp. org.br/leiturativa/).
Enfim, voltando das férias, liberei uma tarde para aceitar o convite e encontrar minhas leitoras. Ficamos conversando mais ou menos duas horas, e saí de lá com algumas reflexões. Eis uma delas.
A prisão, para as mulheres, é uma punição mais severa do que para os homens, e a causa dessa diferença é um atributo feminino.
Claro, há homens leais e mulheres desleais, mas, em regra, a lealdade é uma qualidade mais feminina do que masculina. Não estou pensando na fidelidade amorosa e sexual -nesse campo, homens e mulheres são capazes das mesmas "traições". Penso numa lealdade mais fundamental, que uma comparação vai explicar facilmente.
Em dia de visita numa penitenciária masculina, a fila de mulheres (esposas, mães, filhas, irmãs) é longa: facilmente, é mais de uma visita feminina por cada preso.
Em dia de visita numa penitenciária feminina, a fila é curta e, em sua grande maioria, composta pelas mães das detentas; os homens aparecem num número irrisório. Sei lá, por 700 mulheres no presídio, uma dúzia de gatos pingados visitando. Os homens se esquecem de suas companheiras assim que as portas do presídio se fecham sobre elas. Abandonada pelo companheiro ou marido, a mulher (outra prova de lealdade) prefere duvidar de si: será que o marido nunca comparece porque ela não é, nunca foi, a mulher que ele queria?
A deslealdade masculina aparece também quando os homens são presos; eles são bem felizes de receber a visita das mulheres que voltam a cada semana, lealmente, anos a fio, mas, com frequência, se esquecem dos filhos que deixaram fora do presídio.
As mulheres presas, ao contrário, só pensam nas crianças que estão lá fora (em geral, com a avó; quase nunca com o pai). E, de novo, a lealdade com as crianças as leva a duvidarem de si mesmas: no dia em que sairão do presídio, os filhos não as reconhecerão, ou então, de qualquer forma, eles já gostam de avós, vizinhas, tutores e tutoras mais do que delas - e por aí vai.
Facilmente, as mães detentas vivem o afastamento das crianças não como consequência da punição pelos crimes que elas cometeram, mas, bem mais sofrido, como punição por elas não "merecerem" ser mães -como se os filhos estivessem longe porque elas não souberam e não saberiam ser mães.
As mulheres, qualquer criminologista sabe, agem criminosamente por razões diversas das dos homens. Em regra, matam por paixão amorosa; quando traficam ou assaltam é, frequentemente, para acompanhar o parceiro. Com isso, a prisão feminina é uma espécie de pena do talião: crimes cometidos por amor são punidos pelo sumiço dos homens amados e pelo medo da perda do amor das crianças.
Na época em que trabalhei em instituições psiquiátricas fechadas, quando o expediente terminava e estava na hora de ir embora, no fim do dia, eu era acometido por uma tristeza profunda. Acabava de compartilhar um bom tempo com os que estavam lá internados, e eis que, agora, eu ia embora, para uma casa, uma companhia, o convívio dos amigos. E eles, não; eles ficavam. A tristeza era uma espécie de culpa por abandoná-los no que era, de fato, uma desolação. Pois bem, ao sair da penitenciária do Butantã, não senti nada disso, pois não havia desolação. Não teria como fazer elogio maior à direção do presídio, à equipe que lá trabalha e às detentas que encontrei, pela resiliência de sua vontade de viver.

10 comentários:

Titi disse...

Muito interessante mesmo Salo, sempre penso na sobrecarga do encarceramento feminimo, especialmente nas implicações e ruínas que produzem nesta relação louca de amor que temos com os filhos.... Ah, legal este trabalho de leitura, bem que a gente podia pensar em algo parecido aqui nos pagos.
TITI

Mari disse...

IMPECÁVEL o texto dele. Concordo absolutamente. E a situação "delas" é ainda pior do que a "deles", porque o sistema meritocrático da execução da pena, exatamente como na sociedade extra-muros, moraliza muito mais a mulher do que o homem. Pagam pena em dobro, portanto, a sua própria e aquela que advém da opressão de gênero.

Mari disse...

Ah, e um excelente documentário sobre o tema, filmado em POA, é o "Cárcere e a Rua". Imperdível.

Titi disse...

MARI ANTES DE INICIAR A DAR AULAS NA UCS, ESTAVA FAZENDO UM TRABALHO EM CHARQUEADAS, EXISTE UM ANEXO FEMININO, COM O PESSOAL DA "EDUCAÇÃO NAS PRISÕES", E A NOSSA PRIMEIRA ATIVIDADE FOI PASSAR O FILME "CARCERE E RUA" E DEBATER COM ELAS.... NA VERDADE OUVI-LAS... FOI MUITO LEGAL, MAS ACABOU NÃO TENDO CONTINUIDADE POR VÁRIOS MOTIVOS. QUEM SABE A GENTE PENSA EM RETOMAR OU FAZER ALGO NESSE SENTIDO. FALAMOS. BJS.

Érica, disse...

Quem já visitou um presídio masculino e um feminino entende perfeitamente a sensação de Contardo.
Ao sairmos de um presídio feminino, temos a sensação de aperto no coração. Ao sairmos de um presídio masculino, a sensação é de um soco no estômago.
...
Fizemos uma pesquisa e constatamos o baixo número de separações quando o encarcerado é o homem.
A mulher toma pra si a vida da família e a do companheiro, que está preso. Batalha durante a semana para sustentar seus filhos e no final de semana, lá está ela, na porta do presídio.
Quando o companheiro ganha liberdade, a dificuldade em voltar ao mercado de trabalho é outro fator e, a mulher, continua sustentando o lar.
O mesmo, como vimos no texto, não ocorre com as mulheres.
Uma triste realidade.
Nessa semana, vivenciamos a morte de mulheres por seus companheiros. Outro quadro alarmante.
É preciso o debate, o estudo, a pesquisa, a educação, políticas públicas para que uma nova realidade possa ser construída em prol de nossas mulheres.
gde abraço

Mari disse...

Titi, sou muito parceira de pensarmos em algo sim. Até porque é o tema da minha tese. Falamos na minha volta, ok?
Beijos

Anônimo disse...

"Nada há tão semelhante ao abraço como o estrangulamento."
(MIRA Y LÓPEZ,Emilio. Quatro Gigantes da Alma. 26. ed. Rio de Janeiro: José Olympio Editora, 2009, página 112.)

G.D. disse...

Surpreendente como pessoas que nao tem "raiz" criminologica em seus estudos demonstram possuir mais "a manha" que muitos (DITOS) especialistas.

O Calligaris, entao, SEMPRE surpreende com o bom posicionamento de suas ideias.

PS: ARRUMA pra gente ae mais uns desses adesivos "Teach Peace". Detonou!

SC disse...

he he
adesivinho comprado na telegraph street, em berkeley, ao lado da facul de sociologia.

Amilton disse...

"Você ainda se lembra do que está escrito na bíblia, no livro dos provérbios? Filho sábio, alegria do pai, filho tolo, tristeza da mãe. Se o filho se tornou um garoto inteligente, o pai festeja, vangloria-se e recebe todos os louros. Mas se o filho sai, Deus não permita, um fracassado, um bobão, um tipo problemático, ou se tiver um defeito de nascença, ou se se tornar um delinquente - bem aí não há dúvida de que a culpada é a mãe, e todos os encargos e as dores recaem sobre ela" (personagem de Amós Oz, em "de amor e trevas")