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domingo, 16 de janeiro de 2011

Baudrillard, Matrix, Simulacros e Simulação

É reconhecida a inspiração dos irmãos Wachowski em Baudrillard para a realização da trilogia Matrix.
No primeiro episódio da série, nas cenas iniciais, ao realizar uma das suas vendas ilegais, Neo retira um de seus programas de computador subversivos de dentro de um livro, cuja capa denuncia a presença do autor francês no roteiro: Simulacra and Simulation (Simulacros e Simulação).
Um dos meus atuais prazeres é ler roteiros. Matrix, obviamente, faz parte da interminável lista de obras.
No script de Larry e Andy Wachowski:
"12. Int. Neo's Apartment.
(...) He closes the door. On the floor near his bed is a book, Baudrillard's Simulacra and Simulation. The book has been hollowed out and inside are several computers disks.
He takes one, sticks the money in the book and drops it on the floor." (grifos originais)
A cena é perceptível ao público atento, conforme as imagens.
No entanto, há um diálogo presente no roteiro que não consta no filme - na introdução do livro-roteiro os irmãos Wachowski registram que apesar de ser o roteiro final, alguns diálogos foram modificados no momento das gravações.
Após Neo escolher a red pill e ser resgatado pela Nebuchadnezzar, indaga Morpheus o que é a Matrix. Sentados na nave, o operador (Tank) os coloca dentro do programa de treinamento (construção-simulacro-simulação).
"39. Int. Construct.
(...) Morpheus: You have been living inside a dreamworld, Neo. As in Baudrillard's vision, your hole life has been spent inside the map, not the territory. This is the world as it exists today.
In the distance, we see the ruins of a future city protruding from the wasteland like the blackened ribs of a long-dead corpse.
Morpheus: Welcome to the desert of the real."

10 comentários:

Marcelo Mayora disse...

Tá inspirado.

Moysés Neto disse...

Não sabia que tu gostava tb de Matrix, filme que eu sou apaixonado. O interessante é que Baudrillard declarou que os diretores não entenderam sua obra, pois justamente o que ele afirma é a inexistência do "território", que já é todo mapa. A simulacro é a representação que já não é mais representação, mas a própria vida (danificada, diria Adorno; mas não sei se o niilista Baudrillard concordaria).

Marco Antônio Preis disse...

Ô, Professor, não quero bancar o “do contra” (de novo), mas é que o próprio Baudrilland se incomodou com a associação de sua obra com o filme. Tanto que assim comentou, à época do lançamento: “se leram meu livro, não entenderam nada […] existem filmes melhores que este sobre o mesmo tema. 'Truman Show', por exemplo, é mais sutil. Não deixa o real de um lado e o virtual de outro, como "Matrix”.

O conceito de simulacro tendo por base o “quarto estágio do signo”, não traça uma oposição entre simulação e realidade, entre o real e o signo, não se refere à irrealidade, mas sobre experiências, formas, códigos, digitalidades e objetos sem referência que se apresentam mais reais do que a própria realidade (hiper-reais).
Grande abraço.

SC disse...

marco, foi esta a observação postada pelo mox.
sc

SC disse...

só para que não fiquem dúvidas sobre o que escrevi (e vejam que isto terá um significado importante no final do comentário).
mencionei que os irmão wachowski se inspiraram em baudrillard. depois citei trechos em que consta o nome do autor no script e que não apareceram no filme. ponto.
não toquei na questão se os diretores-roteristas entenderam ou não o autor ou se o autor manifestou que os diretores-roteiristas entenderam ou não sua obra.
o post tem apenas o objetivo de mostrar a inspiração. não pretende discutir quem tem a autoridade de dizer se esta ou aquela interpretação está ou não equivocada. isto para mim soa como 'purismo' demais.
aliás, esta é uma questão bem delicada. inclusive porque o que escrevemos foge ao nosso controle.
já ouvi inúmeras interpretações distintas de determinados textos (inclusive meus).
e sempre há alguém com a pretensão de mostrar qual a interpretação correta (acho que sabem do que e de quem estou falando, para vermos até onde vai este debate).
eu não acho que haja uma interpretação correta de uma obra; entendo que a obra se desprende do autor, podendo ser inclusive interpretada contra a sua "vontade original"; e penso que a 'inspiração' pode estar totalmente desvinculada com o conteúdo (mais ou menos verdadeiro) de um texto.
no caso de matrix, para mim o que vale é que a inspiração produziu um grande filme. isso basta.

Moysés Neto disse...

no meu caso, apenas quis acrescentar um dado à questão toda tratada no post.

na realidade, a questão pode se desdobrar em muitas outras, p.ex, se Baudrillard entendeu Matrix, em especial pelas continuações.

SC disse...

essa é outra boa questão mox.
e é importante ter ciente o debate entre autor do texto e intérpretes, como no casos baudrillard e os wachowskis.
mas sigo entendendo que são obras distintas.

Marco Antônio Preis disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Marco Antônio Preis disse...

Com a devida vênia, meu intento também sempre foi contribuir de alguma forma, expor uma outra perspectiva (que, no caso, nem é minha, mas de um dos interlocutores em questão). Creio que essa troca faça parte da ideia de divulgar um conteúdo em um blog. Posso estar enganado (de novo).
Grande abraço.

SC disse...

sempre bem vindas as contribuições marco. só fui contundente porque esta questão, na linguagem psicanalítica, "faz questão" para mim.
inclusive porque temos no direito -o que se transmite às ciências criminais - autores escrevendo sobre "a resposta certa".
entendo que a vida seja muito complexa para isso.
siga contribuindo.
abraço
sc